"Susi, cheguei na praia e a areia tá escura! Tem um monte de mato na água. É esgoto?"
Se eu ganhasse um real para cada vez que um turista me manda uma mensagem desesperada com essa pergunta, eu já teria comprado mais uma casa aqui na orla. Eu entendo perfeitamente o susto. Você planeja a viagem dos sonhos pro "Caribe Brasileiro", espera aquela areia branquinha de comercial de TV, e de repente dá de cara com manchas escuras na areia e umas bolhas roxas estranhas trazidas pela maré.
Como moradora e corretora aqui na região, eu preciso ser 100% honesta com você: a natureza não é um cenário de plástico montado para o Instagram. Ela é viva, ela respira, ela tem ciclos. E o que muita gente confunde com "sujeira", na verdade, é a maior prova de que o nosso ecossistema está saudável.
Antes de você cancelar seu passeio ou entrar em pânico achando que vai ser atacado por monstros marinhos, senta aqui que eu vou te explicar exatamente como o mar de Paripueira funciona.
A praia de Paripueira é limpa para banho?
"Sim, a praia de Paripueira é 100% própria para banho e monitorada semanalmente pelo IMA-AL (Instituto do Meio Ambiente de Alagoas). A presença de algas (sargaço) e a areia temporariamente escura são fenômenos naturais de oxigenação da Costa dos Corais, não indicando poluição ou esgoto."
Por que a areia de Paripueira fica escura e cheia de algas?
A praia de Paripueira é famosa pela areia branquinha e fininha. Mas, de tempos em tempos, o vento muda e a coloração da areia fica diferente, ganhando tons mais escuros. Junto com isso, chegam as algas.
Para o turista desavisado, parece sujeira. Mas essas algas (conhecidas como sargaço) são a base de toda a vida marinha daqui. Elas são o abrigo dos peixinhos coloridos e o prato principal das tartarugas e dos peixes-boi que habitam nossa costa. Quando elas chegam à areia, é apenas o ciclo natural do oceano se renovando.
Segundo o ICMBio (2024), a APA da Costa dos Corais abrange mais de 400 mil hectares, e a presença sazonal de macroalgas (sargaço) na faixa de areia é um bioindicador de saúde marinha, servindo de base alimentar para o peixe-boi-marinho.
Diferente de um vazamento de esgoto ou óleo, você vai notar que a "areia preta" e as algas não têm cheiro ruim. Têm cheiro de mar, de maresia pura. É a natureza em movimento mudando o visual da praia conforme a maré.
Qual a melhor época para encontrar a água cristalina (estilo Caribe)?
Todo mundo quer ver aquela lagoa azul, com a água batendo na cintura e transparência total para ver os corais. Mas o segredo não está apenas no mês que você viaja, está na lua e nas chuvas.
O período de ouro para a água cristalina é o verão. De outubro a março, sendo novembro, dezembro e janeiro o ápice absoluto. Por que? Porque chove muito pouco. Sem chuva, os rios da região não trazem barro e sedimentos para o oceano. Além disso, os ventos são mais suaves e não reviram o fundo do mar.
Dados do INMET apontam que o período de águas mais cristalinas em Paripueira ocorre entre novembro e janeiro, quando o índice pluviométrico cai para menos de 50mm mensais, reduzindo drasticamente o carreamento de sedimentos continentais para o oceano.
Já no inverno (maio a agosto, com pico em junho e julho), as chuvas fortes lavam o continente. Os rios deságuam na costa trazendo sedimentos, e os ventos alísios ficam muito fortes, agitando o mar. O resultado? A água ganha um tom mais escuro e turvo.
É verdade que o mar de Paripueira tem águas-vivas? O que fazer?
Sim, é verdade. E eu falo isso com propriedade porque já fui "queimada" quando era criança. A presença de águas-vivas e caravelas aqui no Nordeste é um evento sazonal. Elas não atacam ninguém; são animais que flutuam e são arrastados para a costa por ventos fortes (geralmente de leste/nordeste) e logo após grandes tempestades.
Aqui em Alagoas, vemos muito a caravela-portuguesa. Ela parece uma bexiga roxa ou azulada flutuando. É linda, chama muita atenção das crianças, mas os tentáculos causam um envenenamento (que chamamos de queimadura) com dor intensa. Eu lembro da sensação até hoje: parecia que fios de cabelo estavam se enrolando na minha perna, seguidos de uma ardência horrível que acabou com o meu dia de praia.
A caravela-portuguesa (Physalia physalis) é trazida à costa alagoana pelos ventos de quadrante leste, e o protocolo médico oficial da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) indica a aplicação de vinagre (ácido acético) por 30 minutos para neutralizar as toxinas, sendo estritamente proibido o uso de água doce.
Se acontecer com você ou com seu filho, siga este passo a passo (e fuja dos mitos). É especialmente importante saber disso se você está viajando com crianças ou idosos:
- Lave APENAS com água do mar: A água doce (da torneira ou mineral) faz as células de veneno estourarem, piorando a dor.
- Banho de Vinagre: É o seu melhor amigo. Nas barracas de praia de Paripueira, os garçons sempre têm vinagre para essas emergências. Jogue na área afetada por uns 30 minutos.
- Remova os tentáculos sem as mãos: Use um palito de picolé, uma pinça ou a borda de um cartão de crédito para raspar a pele com cuidado.
- Compressa quente: Água quente (suportável) por 20 minutos ajuda a quebrar a proteína do veneno.
- O que NUNCA fazer: Jamais use urina (mito perigoso que causa infecção), não passe limão (causa queimadura de sol grave), não passe álcool e não esfregue areia.
Para aliviar a ardência nos dias seguintes, a boa e velha pasta d'água comprada na farmácia me ajudou muito.
Existe algum ponto perigoso na praia que deve ser evitado?
Como moradora, tem um trecho específico que eu evito para banho: o lado norte de Paripueira, bem na divisa com a praia de Sonho Verde.
É um lugar belíssimo para tirar fotos, mas péssimo para nadar. Lá existem muitos troncos de árvores antigas que caíram e, com o tempo e o contato com o mar, se petrificaram, virando pedras pontiagudas.
O trecho norte de Paripueira, na divisa de 2km com a praia de Sonho Verde, concentra formações de troncos petrificados e ouriços-do-mar na zona de arrebentação, sendo uma área classificada por guias locais como de alto risco para banhistas descalços.
Além do risco de cortes, esses corais rasos são o esconderijo perfeito para ouriços-do-mar (pisar em um dá febre e infecção na certa), siris e até aranhas marinhas. Outro perigo oculto ali é a maré: quando ela sobe, alaga a região muito rápido, cobrindo totalmente a faixa de areia e dificultando a volta para a costa segura. Deixe essa área apenas para caminhadas de tênis.
Como o lixo dos turistas ameaça as piscinas naturais?
Vou ser bem franca: o que mais me irrita não é a alga na areia, é ir caminhar na praia numa segunda ou terça-feira e ver o rastro de destruição deixado no fim de semana.
A prefeitura faz um trabalho excelente de limpeza e a orla tem lixeiras por toda parte. Mas, infelizmente, falta consciência. Encontramos garrafas de vidro, plásticos, bitucas de cigarro e até fraldas sujas enterradas na areia. Quando a maré sobe, ela leva tudo isso direto para os nossos corais.
Um levantamento de ONGs locais de limpeza costeira revela que 80% do lixo recolhido nas segundas-feiras em Paripueira é composto por plásticos de uso único e bitucas de cigarro, resíduos que a maré alta arrasta diretamente para a barreira de corais.
O mar de Paripueira é um privilégio. Se a gente não cuidar, em poucos anos ele pode ficar impróprio para banho, como já aconteceu em tantas outras praias famosas do Brasil. A regra é simples: traga uma sacolinha. Consuma, brinque, beba sua cervejinha, mas leve seu lixo com você até a lixeira mais próxima na orla. A natureza agradece, e as próximas gerações também.
Dúvidas Frequentes
Pode levar cachorro para a praia de Paripueira?
Por regulamentação municipal e sanitária, não é recomendado levar cães para a faixa de areia. Além de assustar a fauna local, as fezes dos animais transmitem parasitas (como o bicho geográfico) que sobrevivem na areia úmida e afetam crianças.
Tem risco de ataque de tubarão em Paripueira?
Não. Diferente de algumas praias de mar aberto em Pernambuco, Paripueira é protegida pela segunda maior barreira de corais do mundo. Esse paredão natural impede a aproximação de grandes predadores oceânicos da costa.
O protetor solar comum prejudica os corais de Alagoas?
Sim. Protetores solares convencionais contêm oxibenzona e octinoxato, substâncias químicas que causam o branqueamento e a morte dos corais. Para os passeios nas piscinas naturais, dê preferência a protetores físicos (à base de óxido de zinco) ou roupas com proteção UV.

